Carta do Especialista 23/09/2022

2022-09-26


Sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Quer saber se você tem algum tumor? É só embarcar no próximo voo… Enquanto isso, a Amazon e a Universidade de Harvard estão trabalhando na criação de uma internet quântica, enquanto pesquisadores chineses testam carros que levitam. E em tempo de inovações, que tal experimentar roupas de forma on-line? Já adianto que para isto é necessário estar despido. Se você acha que existe um limite para coleta de dados, aparentemente as autoridades chinesas não acham o mesmo…

Bora lá!

🛫 Embarque no próximo voo e aproveite para descobrir se você tem algum tumor

Nos aeroportos é comum fazermos um procedimento de verificação, para averiguar se há ou não explosivos na bagagem. Mas você sabia que é possível utilizar a mesma técnica de raio-x ligada a um algoritmo de aprendizado profundo para detectar tumores potencialmente mortais em humanos? 🤔

Os pesquisadores da Universidade College London (UCL) do Reino Unido reconheceram que os sistemas de segurança de raio-X, embora bons em detectar formas, não eram tão eficientes em reconhecer textura. Identificar anormalidades de textura pode ser a chave para localizar explosivos e outros itens nocivos – especialmente aqueles escondidos em objetos maiores.

Então eles começaram a desenvolver um sistema que pudesse ser emparelhado com equipamentos existentes para detectar texturas.

Fisicamente, isso consistia em “máscaras”, ou folhas de metal com pequenos orifícios perfurados. Estes serviram para separar os feixes de raios X em feixes menores, que se espalharam em ângulos incrivelmente estreitos.

Isso resultou em uma imagem mais definida: uma imagem plana e escura tornou-se nítida e quase tridimensional. Os pesquisadores então criaram um algoritmo que poderia analisar a dispersão. Esses padrões de dispersão seriam usados para reconhecer as texturas de diferentes materiais.

Depois que o algoritmo de aprendizado profundo foi treinado, o nível de precisão da máquina de raios X foi surpreendente. Os pesquisadores colocaram explosivos como C4 e Semtex em réplicas de malas de viagem contendo escovas de dentes, carregadores de telefone e outros objetos básicos.

Os aeroportos não são os únicos lugares que podem se beneficiar deste sistema. Os cientistas acreditam que podem utilizar a capacidade do raio-X manipulado para detectar tumores em tecidos saudáveis. Embora ainda não tenha sido feito nenhum teste, eles acham que é possível rastrear precocemente um câncer. Até mesmo a arquitetura pode ser amparada, em casos que há ferrugem e rachaduras nos edifícios.

Por enquanto, o equipamento demonstra ser promissor nos testes em bagagens, recebendo uma nota de 100% de sucesso. Agora, os pesquisadores da UCL estão interessados em testar seu sistema em ambientes da vida real – ou pelo menos em ambientes de laboratório que imitam a vida real mais de perto.

Fonte: MIT Technology Review

🌐 Amazon e Harvard se unem para criar uma internet quântica

A Amazon Web Services (AWS) e a Universidade de Harvard se uniram para promover pesquisas e inovações fundamentais em redes quânticas. A parceria anunciada recentemente é uma continuação dos projetos da AWS de criar um canal de comunicação quântica entre os computadores com os quais também já trabalha.
O projeto contará com um financiamento significativo pelos próximos 3 anos para pesquisas lideradas por professores em Harvard e aumentará a capacidade de recrutamento de alunos, treinamento, divulgação e desenvolvimento da força de trabalho neste importante campo de tecnologia emergente.

O principal objetivo do projeto é desenvolver métodos e tecnologias fundamentais para o que futuramente será uma internet quântica.

“A rede quântica é uma área de pesquisa muito específica que requer foco diferente em comparação com a computação quântica”, disse Simone Severini, diretora de tecnologias quânticas da AWS

Para a Amazon, a esperança é poder pesquisar e desenvolver a infraestrutura de suporte para computadores quânticos ao lado do próprio computador. A parceria entre as gigantes é uma forma de experimentar o estabelecimento de uma rede preliminar que seria capaz de conectar as máquinas.

Além da parceria com Harvard em uma rede quântica, pesquisadores do AWS Center for Quantum Networking estão procurando maneiras de projetar uma melhor tecnologia de memória quântica para habilitar novos hardwares, softwares e aplicativos para redes quânticas que “conectam e amplificam os recursos de processadores quânticos individuais”.

Outras companhias também estão interessadas em desenvolver uma internet quântica. Em uma das meus newsletters anteriores, eu já havia anunciado o projeto de um consórcio de instituições em Chicago e arredores, que estruturou uma rede quântica de 199 Km no início deste semestre, para testar maneiras de enviar informações quânticas. O governo dos EUA também sinalizou seu interesse contínuo em avançar vários desenvolvimentos tecnológicos no campo das ciências da informação quântica.

Esta tecnologia irá mudar muito do mundo que conhecemos hoje… 🤯

Saiba mais no Popsci.

🚗 Carro flutuante movido a imã que chega a atingir 230 Km/h

O futuro com carros voadores está cada vez mais próximo. E não estamos falando agora dos drones tripulados autônomos, que têm sido objeto de muitos artigos que passam por aqui, na Carta do Especialista. Desta vez estamos falando de levitação: pesquisadores chineses da Southwest Jiaotong University em Chengdu, província de Sichuan, testaram carros que usam ímãs para flutuar acima de um trilho condutor.

A equipe equipou os carros sedãs com ímãs poderosos sob o piso dos veículos, permitindo que eles levitassem 35 milímetros sob um trilho condutor de quase oito quilômetros de comprimento. No total, oito carros foram testados, e chegaram a atingir uma velocidade de aproximadamente 230 km por hora, de acordo com o relatório.

Segundo Deng Zigang, um dos professores universitários que desenvolveu os veículos, o uso de levitação magnética tem o potencial de reduzir o consumo de energia e aumentar o alcance dos veículos.

Isso pode ser uma solução para a indústria de veículos elétricos, que disponibilizam cada vez mais autonomia, mas, por consequência, o carro acaba consumindo muito mais energia, o que deixa os consumidores com receio de não conseguirem finalizar uma viagem sem riscos de acabar a bateria.

Outra vantagem do veículo magnético é a diminuição da poluição do ar, podendo ajudar a combater as mudanças climáticas.

Os testes foram realizados por autoridades governamentais de transporte, com o objetivo de estudar medidas de segurança para viagens em alta velocidade situações como riscos de o carro flutuar fora de sua pista magnética ou ser desviado do percurso por algum veículo não magnético.

Há questões de infraestrutura a ser avaliados, pois seria necessário construir uma rede nacional de rodovias eletromagnéticas, que por conta da complexidade, levaria anos para ficar pronta.

Ou seja, não é algo viável para curto prazo.

No entanto, George Sassine, vice-presidente da Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento de Energia em Nova York, está otimista quanto aos carros flutuantes “Embora pareça ficção científica, pode muito bem ser nossa vida diária em 50 anos”, escreveu ele.

Vamos torcer para que Jeff Bezos encontre a “fonte da juventude” para que possamos desfrutar deste futuro ainda jovens rs. 😅

Para quem ainda não o conhece, Jeff Bezos é o homem mais rico do mundo, com uma fortuna avaliada em cerca de 184 mil milhões de euros e um novo sonho. Depois de ir ao espaço, o fundador da Amazon, de 58 anos, está a dedicar-se à procura pela fonte da juventude.

Saiba mais no CNBC.

👕 Novo provador de roupa: agora virtual!

O Walmart está oferecendo aos consumidores uma experiência on-line mais íntima. Em breve todos os usuários poderão ver como as roupas ficarão em seus próprios corpos, no entanto, a exigência para usar este recurso é o que tem gerado polêmica nos canais de notícias.

Com o aumento de compras online, principalmente nos setores de vestuário, mais cedo ou mais tarde o recurso de provador virtual se tornaria um diferencial. Dessa forma, o Walmart está apostando na ideia, inclusive, comprou a startup de provadores virtuais Zeekit em 2021.

Em março, o Walmart estreou sua tecnologia “Choose My Model”, que permite que os clientes escolham entre 50 modelos de tamanhos variados para ver como as roupas se encaixam em um corpo semelhante ao deles. O recurso já está disponível para usuários iOS no app do Walmart – caso queira provar rs. 🤷🏻‍♂️

Agora, em sua próxima fase, “Seja seu próprio modelo”, os usuários podem experimentar mais de 270.000 itens em seus próprios corpos – mas eles serão obrigados a se despir para roupas íntimas ou roupas justas primeiro para que o recurso funcione com precisão.

“Essa experiência permite que os clientes usem suas próprias fotos para visualizar melhor como as roupas ficarão neles e cria uma gamificação de compras que acreditamos ser muito atraente para o cliente”, Denise Incandela, vice-presidente executiva de vestuário e marcas próprias do Walmart.

Diferente da tecnologia anterior que colocava uma foto em cima da outra para testes virtuais, o Walmart diz que “Be Your Own Model” usa algoritmos e aprendizado de máquina para simular um ajuste mais realista.

Por enquanto a empresa é mais recente varejista a adotar a tendência de degustação virtual. Mas em agosto, a Amanzon lançou um recurso de realidade aumentada que permite que os clientes experimentem sapatos virtuais, inclusive, outros varejistas como Macy’s e Adidas também já trabalharam com a Zeekit para experimentar a realidade virtual.

Assim como diversas tecnologias, no passado a utilização causava estranheza até se tornarem populares, talvez este seja o caso dos “provadores virtuais”. Fica a reflexão.

Saiba mais no Business Insider.

👮🏻‍♂️ Polícia chinesa coleta amostra de DNA em massa de tibetanos

Finalizo a Carta de hoje com uma profunda reflexão a respeito de nossa privacidade. Pessoalmente, num contexto de violência em que vivemos, eu prefiro renunciar a minha privacidade em troca de um aumento da minha segurança. Mas em alguns casos, pode ser que existam graves efeitos colaterais. Leia esta última notícia e entenderá o que eu quero dizer…

Segundo o relatório publicado pela Human Rights Watch em 5 de setembro de 2022, a polícia chinesa está coletando amostras de DNA por meio de dispositivos de picada no dedo de residentes tibetanos em toda a Região Autônoma do Tibete (TAR).

O documento afirma que os moradores não podem se recusar a fazer a coleta, além disso, as pessoas não precisam ser suspeitas de crimes para fazer o procedimento, até mesmo as crianças nos jardins da infância foram solicitadas a enviar seus DNAs sem o consentimento dos responsáveis.

Até o momento, foram identificadas diversas unidades de coletas de DNA em 14 locais diferentes em sete municípios da TAR na parte ocidental do planalto tibetano. Nestes locais estão inclusos: prefeitura, dois condados, duas cidades, dois municípios e sete aldeias.

O programa de coleta de DNA em massa já acontece desde 2016, segundo a divulgação do The Citizen Lab da Universidade de Toronto. Analisando 100 fontes públicas, o laboratório descobriu que a polícia pode ter coletado entre cerca de 919.282 e 1.206.962 amostras de DNA de 2016 a 2022. A quantidade total de amostras pertence a 25,1% a 32,9% da população do Tibete, que é de 3,66 milhões.

O laboratório revelou que a polícia havia coletado amostras de homens, mulheres e crianças sem apontar nenhuma investigação criminal, no entanto, as autoridades defendem a coleta como ferramenta para combater crimes, encontrar pessoas desaparecidas e garantir a estabilidade social.

A autora do relatório do Citizen Lab, à VICE World News, Emile Dirks, acredita que a polícia chinesa tenha total autonomia sobre os dados coletados para utilizá-los em quaisquer finalidades.

O Ministério da Segurança Pública da China criou um sistema chamado “investigação de ascendência masculina” para lidar com crimes desde 2017 e coleta registros familiares e dados genéticos de cinco a dez por cento de seus cidadãos do sexo masculino, informou o Vice.

Atualmente eles possuem o maior banco de dados de DNA forense, e aparentemente é o único país que está coletando amostras em massa fora do escopo das investigações, de acordo com relatos do professor universitário James Leibold.

Até que ponto – ainda mais se tratando de um país com características muito peculiares – estes dados não poderão ser usados com outra finalidade? 🤔

Saiba mais no Interesting Engineering.

Por hoje é só, até semana que vem! 👋

Renato Grau



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